Rondônia, 35 anos de criação.

Foto de Rodrigo Erse.
O reconhecimento histórico é a busca para a compreensão dos esforços de
nossos antepassados para a construção da atual sociedade. Conhecer a cultura,
costumes e ensinamentos de diferentes povos, mostra como a variedade pode
contribuir para o saber e o desenvolvimento do presente, além de ser a base
para a evolução do futuro.
Se o mundo se encontra em São Paulo, o Brasil se encontra em Rondônia.
Somos um verdadeiro mosaico. Um lugar de
riquezas históricas e culturais variadas. Assim é Rondônia, um Estado novo, com
fortes traços indígenas e diversas influências culturais que, ao longo do
tempo, formou uma cultura única, miscigenada, como em nenhum outro local. Essa
expressão cultural do Estado está presente na rica gastronomia, no folclore, na
beleza do artesanato e na sua história, que possui capítulos de momentos e
ciclos econômicos, que proporcionou ao homem encarar inúmeros desafios em meio
à grande Floresta Amazônica; homens que deram o suor, o sangue e a vida por uma
grande história.
Índio Suruí – Foto de Rodrigo Erse
O desafio dos
desbravadores de Rondônia teve sua primeira página escrita na história, no
momento da chegada de sertanistas e bandeirantes nessa região, homens como
Raposo Tavares e Francisco Palheta, que ousaram encarar as regiões mais
inóspitas do Brasil Colônia, para garantir no passado à coroa portuguesa, a
posse desse rico território. Durante o período de exploração dos vales do
Madeira, Mamoré e Guaporé, vivemos o ciclo do ouro e das drogas dos sertões, o
homem busca a riqueza a todo custo, enfrenta índios, o calor, a fome e as
doenças. É constantemente energizado com o sonho do Eldorado, com a
possibilidade de conseguir riquezas alçando assim, parte de seus objetivos.
Batelão do Divino no Rio Guaporé – Foto de Rodrigo Erse.
Para garantir
a posse de nossa região, a Coroa Portuguesa deu ordens para construir
fortificações com o propósito de combater os invasores espanhóis e estabelecer
aqui o controle das terras amazônicas. E assim, as margens do rio Guaporé se
inicia no século XVIII, a construção de uma obra prima em meio a Amazônia, o
monumento mais antigo de Rondônia, o Real Forte do Príncipe da Beira, que é
considerado um dos maiores fortes da América do Sul.
Rio Guaporé em Costa Marques – Foto de Rodrigo Erse.
Rondônia
também viveu os tempos áureos do ciclo da borracha, foi daqui dos Vales do
Madeira, Mamoré e Guaporé que saiu o ouro branco, o látex, a tão desejada
borracha, destinada aos centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. Foi
nesse contexto que a nossa miscigenação ganhou força, ganhou detalhes
formidáveis, eis que surge na nossa história o migrante nordestino, quem vêm
para Rondônia em busca de melhores dias e aqui, se veste de coragem e esperança
em dias melhores, longe da seca do nordeste brasileiro. É aqui na Amazônia que
os elementos culturais nordestinos vão se misturar aos valores e realidade
cabocla e beradeira, é aqui no coração da América que viverão faces marcantes
de sua história os índios, o negro e o branco. É portanto, durante o ciclo da
borracha que o homem entende que se faz necessário manter a floresta em pé,
ter-la assim é sinônimo de desenvolvimento, lucro e futuro. É do corte da
seringueira que se extrair a vida, o dinheiro e o sustento.
Estrada de Ferro Madeira Mamoré – Foto de Rodrigo Erse.
Para o ouro
branco, a borracha, chegar mais rápido aos grandes centros, o homem viveu um
dos maiores desafios já enfrentados. O Trem Fantasma, a Ferrovia da Morte, a
Estrada de Ferro Madeira Mamoré que se tornou, a mais nova obsessão dos
pioneiros de Rondônia. Havia a necessidade de escoar a grande produção da
borracha, que encontrava dificuldades entre os trechos de saltos e corredeiras
entre os Rios Madeira e Mamoré. Não foi fácil, foram necessários quarenta anos
para consolidar a travessia daquilo que era o mais moderno do mundo, os trilhos
e a sua Maria fumaça. Vidas foram ceifadas, lendas foram construídas e o sonho
mais uma vez concretizado. Mas é de lendas e sonhos, que se fortalece o
espírito humano e jamais será esquecida a proeza dos que viveram, sofreram e
morreram pela Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Festa do Duelo da Fronteira em Guajará Mirim. – Foto de Rodrigo Erse.
Rondônia com
seu nome homenageia um dos personagens mais nobres de nossa história, o grande
sertanista Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, nobre explorador que em
1909 por aqui chegou, e dois anos depois fundou a primeira Estação Telegráfica
de Rondônia na localidade de Vilhena. A partir da Estação Álvaro Vilhena, este
grande sertanista seguiu por todo o Estado até Porto Velho e depois
Guajará-Mirim.
Menina cabocla em Rondônia – Foto de Rodrigo Erse.
O Estado de
Rondônia sempre foi palco de grandes histórias, de grandes aventuras e
odisséias, mas nenhuma história ou momento foi mais especial do que a vinda dos
migrantes na década de 70. Naquela época, a região é invadida e conquistada por
milhares de pessoas de todos os recantos do Brasil, que chegam com seus sonhos
e encaram muitos pesadelos. Tudo estava ainda por construir, e é com esses
braços fortes e coragem no coração, que os brasileiros fazem Rondônia ser
protagonista de um dos maiores surtos migratórios da história do Brasil. Mas
também, houveram confrontos, mortes e destruição, a história não apaga, o
rastro de sangue dos povos indígenas.
Frutos – Foto de Rodrigo Erse.
Em 4 de
janeiro de 1982, o sonho daqueles que chegaram aqui se consolida, o Estado é
criado mas, ainda nos resta a grande motivação de sempre acreditar que é
possível melhorar. Hoje Rondônia mais uma vez vive um ciclo épico, é necessário
que cada Rondoniense e Rondoniano possa lutar lembrando sempre daqueles que
estiveram aqui antes de nós, e desempenharam com heroísmo a construção de nossa
história.
Aleksander
Palitot
Professor e
Historiador