Amazônia e os seus primeiros habitantes

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Nos sítios arqueológicos da Amazônia, foram
encontrados vestígios, em sua grande maioria, de pedra e de cerâmica. Além do
mais, os povos da região não conheciam nem possuíam escrita. Com isso, podemos
caracterizar a arqueologia da Amazônia pela fabricação de objetos de pedra e de
cerâmica, além do material perecível (madeira, fibras, folhas, etc).
Dentre os sítios e vestígios arqueológicos da
Amazônia, conforme a pesquisadora Adélia Engrácia, temos como os principais
tipos:
SAMBAQUIS: Consiste em depósitos de conchas encontrados,
no caso, ao longo das margens dos rios da Amazônia.
PALAFITAS OU ESTARIAS: Cabanas erguidas sobre estreitos em lagos,
lagoas ou áreas inundáveis.
INSCRIÇÕES RUPESTRES: Gravuras de desenhos em pedras e abrigos
sob-rocha, observados nos rios Xingu, Negro, Uaupés, Mamoré, Guaporé, Madeira,
dentre outros.
Desenho rupestre na região de Presidente Médice
ATERROS ARTIFICIAIS: Aterros feitos, em áreas inundáveis, por
povos indígenas para construir suas aldeias. Em geral, tais aterros possuíam de
um a três metros acima do nível da água.
HIPOGEUS OU POÇOS ARTIFICIAIS : Eram escavações usadas como cemitérios.
O estudo histórico sobre a arqueologia da
Amazônia, serve para nos mostar a maneira de viver (a cultura) complexa e
diversificada dos índios da Amazônia. Diversas culturas são destacáveis pela
qualidade artística de suas produções, tais como: Cunani, Maracá, Miraranguera
e, principalmente, as culturas de Marajó e de Santarém.
Estatueta feminina encontrada em Presidente Médice
Com relação às culturas de Marajó e Santarém,
pode-se notar que, além do complexo acabamento artístico, suas cerâmicas
apresentavam outras funções, como:
MARAJÓ
A cerâmica Marajó apresentava duas funções básicas:
utilitária, pois eram formas funcionais e sem decoração nas superfícies;
religiosas, apresentando variados tamanhos e formas, além de complexa decoração
artística.
Cerâmica Majaró
SANTARÉM
A cerâmica Santarém compreendia vários
utensílios (vasos, taças, bacias,etc), servindo para exercer funções diversas.
Dessa maneira, a partir da arqueologia da Amazônia, podemos ter uma idéia
preliminar e geral sobre as culturas pré-coloniais da região.
POPULAÇÃO INDÍGENA EM RONDÔNIA
O início da ocupação humana na Amazônia se
deu há pelo menos 14 mil anos, entre final do Pleistoceno e o começo do
Holoceno. Esta data pode ser ainda mais antiga, alcançando cerca de 20 mil
anos. Sendo assim, os primeiros ocupantes destas terras em transformação foram
grupos que viviam da caça, pesca e coleta. Ao que tudo indica, estariam
organizados em pequenos bandos, decerto compostos por algumas famílias, as
quais tinham grande mobilidade espacial em um território imprecisamente
marcado.
Nômades, eles deixaram vestígios fugazes,
como restos de lascamentos da pedra e fogueiras esparsas, contando-se,
atualmente, com poucos sítios arqueológicos cadastrados. Muitas vezes, suas
pistas se restringem a belas pontas de projéteis em sílax e calcedônia,
recolhidas por dragas de garimpo no fundo do Rio Madeira ou nas altas barrancas
de suas margens.
Índio Suruí em Rondônia
Existem inúmeros sítios arqueológicos em
Rondônia em seus diversos municípios com oficinas líticas, desenhos rupestres
em lajedos e etc. Muitos localizados em Porto Velho, Nova Mamoré, Costa
Marques, Presidente Médici, Ji-Paraná, Rolim de Moura, Alta Floresta do Oeste,
Machadinho e Guajará-Mirim principalmente.
Ao longo dos milênios, os esparsos habitantes
acabaram se espalhando por toda região, criando raízes. E ele teriam sido,
ainda, os responsáveis pelas primeiras alterações no meio ambiente, relativas
ao manejo de espécies florestais preferidas e experimentações de cultivo, desde
ao menos oito mil anos. Este longo processo de alterações genéticas foi
necessário para a plena domesticação das plantas, o que levou ao surgimento de
sociedades intensamente agricultoras e de alta densidade populacional, como as
de hoje.
Índios Gavião em Rondônia.
Ainda não foi possível chegar-se a números
mais exatos e a estimativa mais fidedignas sobre a população original da
Amazônia, todavia, de outro lado, não resta dúvida de que a Amazônia ocorreu
uma verdadeira catástrofe demográfica com relação à população indígena.
Isso pode ser visto ainda hoje, pois o maior
dos sintomas desse grande despovoamento é a condição de extinção a que está
submetida a maioria das poucas culturas indígenas que restaram.
Os índios mais antigos relatam como viram
outras nações indígenas amigas e adversárias desapareceram ainda neste século.
Outros, completamente destribalizados e dizimados culturalmente, não tiveram
outro caminho senão integrar-se à cultura dos “brancos”, vivendo em condições
de extrema precariedade. Apesar dos esforços dos índios, de antropólogos e
organizações, muitas culturas já entraram num processo irreversível de
extinção.
Essa catástrofe demográfica tem suas origens
com a invasão do colonizador europeu, que passou a tomar posse das terras dos
índios, escravizando a mão-de-obra indígena e impondo sobre essas culturas a
força da espada e o temor da cruz, como forma de civilizar aquele que era tido
por “selvagem”.
Além do mais, os colonizadores trouxeram
muitas doenças e problemas sociais que, antes, não existiam entre os indígenas,
o que colaborou ainda mais para a dizimação se desse de maneira acelerada e
intensiva.
Dentre os vários grupos indígenas existentes
em Rondônia, podemos destacar dez grupos de maior expressão no Estado: Gavião,
Arara, Cinta Larga, Karitiana, Karipuna, Pakaás-Novos, Suruí,
Tupari-Makurap-Jabuti, Kaxarari e Uru-EU- Wau-Wau. Os grupos indígenas de
Rondônia ocupam uma área de 4.524.142 há, equivalente a 18,62 % do território
do Estado.
Desenhos rupestres em Jirau – Rondônia
A tribo dos Gaviões encontra-se localizada
nas proximidades do Posto Indígena Igarapé Lourdes, no afluente do Rio
Ji-Paraná. Por volta de 1955, ocorreu a classificação da língua falada pelos
Gaviões, constatando-se que se tratava de uma ramificação do tronco Tupi. O
contato, de fato, dos índios Gaviões com a população “branca” ocorreu devido à
penetração marcante dos seringueiros e caucheiros em terras que até então eram
inexploradas. E, por esse motivo, os índios acabaram por aprender as atividades
cabíveis a um seringueiro, iniciando-se assim o processo praticamente
inevitável de perda da sua identidade étnica e sua integração como indivíduos
das populações locais, pois, de um lado, havia a presença de seringueiros e, de
outro, os, missionários com seus objetivos eclesiásticos.
A tribo dos Araras localiza-se bem próximo à
aldeia dos Gaviões, sua língua, apesar de ser do tronco Tupi, é da família
Ramarama. O ano de 1853 marca o primeiro contato desta tribo com os
missionários, que não foram bem sucedidos, pois os índios Araras não aceitavam
ser catequizados. Ao findar do século XIX, os missionários tentaram mais uma
vez a aproximação com os Araras, que se encontravam enfraquecidos, pois haviam
contraído doenças que estavam dizimando sua população. No entanto, os índios
não se deixaram abater, e mais uma vez expulsaram os jesuítas. Porém, não
conseguiram vencer os seringueiros e os caucheiros que chegaram à região,
estabelecendo assim relações pacíficas com eles.
Índios Karipuna na região de Porto Velho – 1910.
A tribo dos Cinta Larga em Rondônia habita a
área do Parque Indígena Roosevelt, a área que está incluída no Parque Indígena
do Aripuanã. A classificação linguística dos Cinta Larga, também, procede do
tronco Tupi (família Mondé). As terras dos Cinta Larga fazem parte de uma zona
aurífera de Rondônia. Por esse motivo, os primeiros contatos desses índios com
os não-índios ocorreram através dos garimpeiros, contato marcado por extrema
hostilidade indígena em razão de as suas terras estarem sendo invadidas, de um
modo geral, por conta da presença áreas ricas em diamantes. Um dos eventos
trágicos é o caso do Massacre do Paralelo 11 na região indígena. Muitos índios
foram massacrados por garimpeiros e jagunços.
Os Karitianas são uma tribo que vive na área
do Parque Indígena Karitianas, localizado no município de Porto Velho. Sua
classificação linguística também provém do tronco Tupi (família Arikém). Apesar
de terem mantido contato com os exploradores ainda do século XVIII, os
Karitianas, localizado no município de Porto Velho. Sua classificação
linguística também provém do tronco Tupi (família Arikém). Apesar de terem
mantido contato com os exploradores ainda no século XX, quando passaram a
sofrer exploração por parte dos caucheiros e seringueiros. Em 1910, com o
surgimento do Serviço de Proteção ao Índio, SPI, a tribo dos Karitianas passou
a receber proteção desse órgão, evitando assim que fossem explorados.
Índio Karipuna na região de Porto Velho.
No século XVIII, uma das tribos mais
comentadas da região era a dos Karipunas, visto que essa tribo estendia-se
pelas margens dos rios Madeira, Mutum-Paraná e Jaci-Paraná, fato que a colocava
em contato direto com as pessoas que estavam trabalhando na construção da
ferrovia. Por esse motivo, os Karipunas foram os mais atingidos com a
construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
O grupo indígena dos mais numerosos de
Rondônia é o Pakaás-Novos. Estes encontram-se espalhados por uma vasta região
do município de Guajará-Mirim. Os primeiros contatos dessa tribo, no passado,
foram estabelecidos com os jesuítas, os trabalhadores da Estrada de Ferro
Madeira-Mamoré e com os seringueiros e caucheiros, o que foi marcado por
conflitos, seguida de morte de ambos lados.
Índios Uru-Eu-Wau-Wau em Ariquemes
O grupo indígena que se encontra em
isolamento é o dos Uru-Eu-Wau-Wau, que, apesar de terem estabelecido contato
com a FUNAI, optaram por permanecerem isolados da “civilização”.
A tribu dos Suruí passou a enfrentar sério
problemas quando se expandiu a colonização na região do centro do Estado de
Rondônia, no período dos projetos de integrados de colonização da década de
1970, o que facilitou as invasões de suas terras principalmente de grileiros.
Os Suruís nunca estiveram abertos ao contato com os povos “brancos”, fato este
comprovado, pois jamais se deixaram evangelizar por missionários. Por esse
motivo, os primórdios são marcados por conflitos, em sinal de defesa de suas
terras, que eram invadidas ou ameaçadas.
Aleks Palitot
Professor e Historiador

 

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